Pura afinidade
Quem nunca se sentiu à vontade para fazer confidências a um amigo em especial? Ou ficou horas com alguém sem perceber que o tempo passava? Existem pessoas que despertam em nós a vontade de estar junto. De dia, de noite, na alegria, na tristeza. Entenda melhor essa química humana que aproxima e torna tão forte as relações PATRÍCIA AFFONSO
Verdade seja dita: ter alguém para compartilhar a vida é bom demais! Ninguém consegue viver sozinho, isso é fato. Por mais que se considere auto-suficiente ou introspectivo, vai se deparar em algum momento com a necessidade de interagir com o outro. Os motivos podem ser diversos: os apelos da jornada profissional, os chamados do coração ou simplesmente a necessidade de se abrir e dividir com o outro momentos da vida, que em determinadas fases apresenta-se bem complicada para ser encarada sozinha. Nesses instantes entra em cena um sentimento muito importante, que facilita bastante a nossa caminhada: a afinidade.
Talvez você nunca tenha se dado conta, mas quase todas as relações estabelecidas ao seu redor acontecem graças à ela. E assim é com casais, irmãos, amigos, colegas... Alguém percebe no outro características que atraem, que despertam o desejo de proximidade, de confidências, de conversar por horas. É o ponto de partida para um relacionamento verdadeiro, intenso. Grande parte da magia do nosso viver está em conviver. E é a favor da convivência, da ligação entre as pessoas e das trocas positivas que a afinidade dá o ar da graça.
A força das semelhanças
Para Eliana Melcher Martins, psicóloga e professora da Universidade Federal de São Paulo, afinidade tem muito a ver com identificação. “É bastante comum que ela aconteça quando vemos no outro características e objetivos que também temos. Isso por que quando alguém nos mostra que se parece conosco, fica mais fácil aceitá-lo. É uma afinidade por projeção: a gente se enxerga naquela pessoa”, diz. Geralmente são essas semelhanças que nos dão aquela sensação de conhecer há muito tempo quem acabou de aparecer em nossas vidas. Você certamente já sentiu isso, não é mesmo? Notar padrões de comportamento parecidos e descobrir gostos iguais nos transmite segurança para continuar em uma relação. É como se alguma coisa, lá dentro de nós, apontasse que aquele alguém merece a nossa atenção, afinal ele combina conosco. “Entre as crianças isso é ainda mais forte.
Se você reparar em uma sala de aula vai ver muitos grupinhos, todos bem definidos. Elas procuram os semelhantes e muitas vezes rejeitam os que agem ou pensam de maneira distinta”, explica Vera Lúcia Constantino de Campos, psicóloga de Campinas. Porém, é claro que as coisas não são assim tão simples. Não bastam apenas gostos em comum e objetivos similares para sustentar uma relação saudável.
"Em se tratando de afinidade, nada é exclusivo e nem precisa ser pleno. Podemos nos identificar com algum ponto da personalidade de alguém e não gostar de outros. Isso é natural e não minimiza essa cumplicidade"Marco Antonio De Tommaso, psicólogo
Esse costuma ser o início, o despertar do interesse entre as pessoas. Ao conhecer outras particularidades de um “novo amigo”, a afinidade pode tornar-se ainda maior ou simplesmente perder a força. “Às vezes você se identifica e se aproxima de alguém porque estão passando por situações parecidas, então um apóia o outro. Depois disso podem perceber que não têm mais nada a ver. Era algo momentâneo. Em se tratando de afinidade, nada é exclusivo e nem precisa ser pleno. Posso me identificar com algum ponto da sua personalidade e não gostar de outros. Isso é natural e não minimiza essa cumplicidade”, afirma Marco Antonio De Tommaso, psicólogo de São Paulo. Lembra daquela sua colega de trabalho? Vocês se dão bem, há cooperação e sintonia, mas quando tentaram sair do ambiente do escritório e estabelecer uma amizade fora dali, perceberam um certo descompasso, a coisa não fluía. Isso não significa que não havia afinidade profissional. O mesmo vale para aquele namorado maravilhoso, com quem é impossível fazer uma parceria de negócios. A dificuldade em uma área não exclui a afinidade proveniente de outros campos.
A doce atração dos opostos
Todo mundo já ouviu alguma vez na vida aquela história de que os opostos se atraem, não é verdade? Pois é, especialistas são unânimes ao afirmarem que existe a tendência de proximidade com aqueles que se assemelham conosco, mas admitem que o diferente também pode atrair. E muito! Nesse tipo de relação, entra em cena dois conceitos importantes para o ser humano: o complemento e o aprendizado. “A atração acontece quando eu percebo no outro características que admiro e que não possuo, coisas que eu gostaria de ter, de saber fazer e não sei”, pondera Eliana Martins.
Muito mais do que achar aquela pessoa interessante, procuramos incorporar em nossas vidas o que enxergamos de melhor nela. “São personalidades complementares, uma passa segurança à outra. Por exemplo, uma moça tímida pode desenvolver afinidade com outra, que é extrovertida, por admirar a forma como essa lida com o mundo. A tímida, por sua vez, pode ensinar à extrovertida como preservar sua intimidade em alguns momentos. É uma troca!”, avalia Vera Lúcia
"É preciso que exista alguma coisa que motive as pessoas a seguirem juntas, seja os aspectos parecidos ou a vontade de aprender com o outro. Essa é a grande justifificativa para o vínculo"Vera Lúcia Constantino de Campos, psicóloga
E quando os perfis são radicalmente diferentes e duas pessoas não concordam em nada, será que pode dar certo? “Acredito que, em um primeiro momento, a curiosidade pelo desconhecido pode chamar a atenção e deslumbrar, mas esse tipo de relação está mais sujeita aos desentendimentos. É preciso que exista alguma coisa que motive essas pessoas a seguirem juntas, seja ela os aspectos parecidos ou a vontade de aprender com o outro. Assim existe um sentido para o vínculo”, completa a psicóloga.
Vibração recíproca é o alvo
Talvez, o mais importante a se saber sobre afinidade é que ela implica necessariamente em reciprocidade. Afinal, quando dizemos que algo está em sintonia, significa que ele vibra na mesma freqüência que um outro, com o qual está sendo comparado. Para ser mais abrangente, vale citar os elementos da química. Eles têm composições diferentes, assim como cada ser humano, que é único, mas têm tendência a combinar-se melhor com determinadas substâncias. Misturar essências incompatíveis pode gerar resultados explosivos, assim como algumas relações que você já deve ter visto por aí.
Então que fique claro: quando um só lado sente-se atraído, não se trata de afinidade, mas admiração. Um bom termômetro para esse conceito é a forma como justificamos nossas ações: vou fazer com ele ou vou fazer por ele? A afinidade valoriza o bem comum, a vida conjunta e como já dissemos, as trocas positivas. “Outra coisa importante é que uma relação saudável, seja ela de amor, amizade ou profissionalismo, preserva a individualidade. Afinidade de verdade não nos faz abrir mão da nossa auto-estima, de nossas particularidades ou se anular em nome do outro”, finaliza Tommaso.
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