EM UM MUNDO PÓS-MODERNO
Introdução
O tema desta conferência é bastante abrangente e compreende conceitos de cultura, sociedade, arte e educação. Como fazer sentido em um rol tão variado de assuntos? Não prometo uma iluminação instantânea sobre as complexidades destes temas, mas tentarei identificar três áreas problemáticas, cada uma com um impacto sobre culturas, sociedades, as artes e a educação no mundo todo. Cada uma destas áreas, à sua maneira está afetando ou irá afetar a arte-educação internacional.
O primeiro tema é o modernismo como um movimento cultural no mundo ocidental: ou mais precisamente, a transição do Modernismo para o Pós-modernismo.
O segundo é o aparecimento de um Mercado Cultural Internacional, que é às vezes igualado à modernidade ocidental, mas que é dirigido por forças econômicas muito mais fortes que o ocidente.
O terceiro tema é o Mundo Pós-Guerra Fria, situação em que as nações estão sendo arrasadas por causa de antagonismos étnicos no exato momento em que o mundo parece estar a um passo de integrar seus sistemas de produção, marketing e informação.
1. Modernismo Estético e Cultural
Embora o modernismo ocidental tenha tido um tremendo impacto nas culturas do mundo ocidental pelos últimos dois ou três séculos, sua influência não se limitou ao Ocidente. Afetou seres humanos no mundo todo tanto de maneira positiva quanto negativa. O modernismo como revolução cultural inclui mais do que as artes e a literatura. Tem sido descrito como um desenvolvimento do pensamento da cultura ocidental que abrange o liberalismo científico, tecnológico, industrial, econômico, individual e político como aspectos interativos. Estes são aspectos do modernismo cultural e estabelecem a base para a estética modernista (ver Efland, Freedman & Stuhr, no prelo, Capítulo II ).
A estética modernista, no entanto, é um conceito menos abrangente e se refere a desenvolvimentos estéticos das artes nos fins do século dezenove e início do século vinte. Isso inclui pintura, arquitetura, fotografia e cinema, as várias formas de arte contemporânea que se expandiram no Ocidente. O modernismo estético tentou reformar as artes criando imagens para uma sociedade melhor e mais humana que presumivelmente estava emergindo com o progresso da ciência. Os artistas representavam esta mudança se distanciando das tradições artísticas ocidentais anteriores.
Uma das características centrais do modernismo era a rejeição radical às suas próprias raízes na cultura ocidental. Em seu zêlo de reformar e exaltar as artes, artistas e críticos muitas vezes desenfatizavam o folclórico e as tradições populares tanto das culturas ocidentais quanto das não ocidentais, como sendo carentes de significação cultural. Uma conseqüência da elevação da expressão artística a um nível considerado mais alto que a cultura popular foi o isolamento das belas-artes do resto da sociedade transformando-a em um projeto elitista.
Como resultado, a arte moderna é mais freqüentemente ensinada como não tendo contexto social. Professores de arte enfatizam elementos e princípios do desenho como uma base para o fazer arte e a apreciação, mas são geralmente incapazes de explicar como a arte moderna refletiu as mudanças que ocorreram nas vidas das pessoas enquanto fatores científicos, tecnológicos e econômicos que modificavam a cultura e a sociedade ocidental. Uma estética modernista prevaleceu, seus defensores tendiam a considerar as artes como esferas autônomas do esforço humano, sem relação com o mundo social.
Origens do modernismo cultural
Teóricos sociais contemporâneos normalmente atribuem ao Iluminismo do século dezoito na Europa e nos Estados Unidos o início do modernismo cultural. A filosofia Iluminista, às vezes chamada de "Projeto Iluminista", adotou ideais que se tornaram o fundamento do pensamento contemporâneo ocidental (euro-americano). Estes ideais têm saturado a prática da política, economia e das artes tanto quanto o estudo da vida social em disciplinas como história e ciências sociais. A consciência da maioria dos ocidentais vivos hoje foi moldada pelo Iluminismo. O Iluminismo deu ao Ocidente o que Confúcio deu à China, notadamente uma característica cultural difusa.
No entanto, o modernismo cultural tem tanto desvantagens quanto benefícios. Ele tende a padronizar e regularizar o pensamento na educação controlada pelo estado, na indústria e no comércio. Pode, às vezes, considerar tradições culturais de fora do Ocidente como sendo exóticas, costumes étnicos, cheios de charme mas carentes de um conhecimento que realmente interesse.
A cultura ocidental tem pago o preço do conhecido progresso também. Ao privilegiar explicações científicas da natureza como verdade absoluta, dá margem à filosofia materialista que nega qualquer possibilidade de um lado espiritual ou imaginativo na natureza humana. Artistas ocidentais sentindo esta falta em sua própria tradição cultural, tomaram-nas emprestado de fontes não ocidentais. Poetas, como John Keats, que viveu depois que Isaac Newton revolucionou a ciência da física, viu esta mudança como que "apressando o crepúsculo dos deuses." Em seu livro intitulado "Catching the Light" o físico Arthur Zajonc (1993) descreve como a fascinação do homem ocidental pelo arco-íris diminuiu com o advento da ciência.
"De uma consciência que via o arco-íris como sendo um pacto com Deus... passamos a ver o arco-íris como um fenômeno efêmero de luz mundana criado pela refração e pela chuva. Nós temos trocado uma antiga visão ou imaginação do mundo pela da ciência contemporânea, e ao fazermos isto, do ponto de vista de Keats, estamos ‘desfiando o arco íris’" (Zajonc, pp. 180-181).Com a visão dos poetas e pintores desbancada pela do cientista, a cultura do Ocidente cedeu parte da sua alma para colher conhecimento e compreensão científica.
A Transição do Modernismo ao Pós-Modernismo
Desde a metade dos anos 60 novas publicações críticas tem reformulado a paisagem cultural do ocidente. Isto é melhor explicado como uma mudança de consciência do ponto de vista do mundo moderno baseada na noção de progresso através do avanço da ciência, para um estado de consciência chamado de pós-moderno no que há menos confiança de que o futuro será necessariamente melhor que o presente ou o passado. O modernista podia rejeitar as tradições do passado como sendo fora de moda, pertencentes à história, velharias que deveriam ser esquecidas, preferindo manter o foco no futuro, com novas formas de arte e novos meios de construir a realidade. O modernista era um otimista.
O pós-modernista, em contraste, é menos confiante sobre o futuro e tende a ser crítico de noções como a de que o progresso é a inevitável conseqüência do avanço da ciência. A ciência moderna explica o arco-íris, mas não o enreda no processo. O mito do progresso permitiu às pessoas aceitar mudanças, sempre se nesse ínterim pudessem, às vezes, negociá-lo por fora. As pessoas, às vezes, ganharam um alto padrão de vida e bem-estar material, mas perderam sua fé nas tradições que haviam nutrido seu espírito. Os artistas modernos inicialmente começaram a expressar esta inquietação há mais de 100 anos atrás, em imagens que veiculavam alienação, terror, ódio e, às vezes, fome espiritual.
Para muitos, os artistas modernos do século vinte no ocidente estavam engajados em experimentalismos estilísticos no esforço de criar uma nova visão humana. Artistas como Picasso e Braque inventaram abstrações para penetrar além da superfície da pintura. Mondrian e Kandinsky transcenderam a abstração para trabalhar com forma e cor puras esperando penetrar numa realidade mais alta que eles sentiam além das aparências superficiais. Kandinsky equacionou esta pesquisa com um interesse pelo espiritual. Outros artistas procuraram encontrar a nova visão nos profundos recessos da mente subconsciente, como vemos em estilos conhecidos como Surrealismo e Expressionismo.
O ápice de todo esse experimentalismo, como vimos em retrospecto, é que o modernismo não teve sucesso em construir uma visão da realidade que consiga ter significado para um grande número de pessoas em sociedades que tenham sofrido rápida industrialização. Talvez o reconhecimento deste fato tenha introduzido o Pós-Modernismo.
Os Desafios Diante da Arte-Educação Pós-Moderna
Por que a transição do modernismo para o pós-modernismo é um provável desafio para professores de arte em suas salas de aula e afeta também a arte-educação internacionalmente? Para responder, esboço uma série de contrastes entre a arte moderna e a pós-moderna, como veremos na série de tabelas a seguir:
Visões Contrastantes da Natureza da Arte
A principal diferença entre a visão moderna e a pós-moderna é que para a arte moderna apenas tipos muito especiais de objetos podem reivindicar ser obras de arte. A arte na visão modernista é extremamente exclusiva. Apenas certas pessoas com habilidade artística estão autorizadas a serem chamadas de artistas, logo apenas elas são capacitadas para produzir formas de arte altamente originais. Uma arte-educação baseada sobre esta visão enfatizaria o estudo de trabalhos que reivindicam ter um grau de excelência definido tanto pela sua originalidade quanto pela pureza de sua composição formal. Igualmente, as crianças poderiam ser encorajadas a serem originais em seu fazer artístico. A cópia de qualquer espécie seria condenada. Esta era a guia filosófica da prática da arte-educação modernista.
No pós-modernismo, a linha entre formas de arte eruditas e não-eruditas desaparece. Formas de arte sérias cessam de conceder status privilegiados. Ambas tornam-se disponíveis para a apreciação. Porém, tanto a arte erudita quanto a não erudita apresentam desafios especiais para o educador. A arte erudita usualmente requer treinamento especializado antes que possa ser apreciada, desde que foi feita por e para um familiar grupo de elite com códigos e imaginário modernistas. A indústria cultural pode ter apelo instantâneo, mas seu público pode ser totalmente inconsciente de como ele pode ser manipulado por tantas indústrias culturais como MTV, Time-Warner e Disney, que impõem formas e ideologias culturais para integrar audiências numa ordem social existente. Como muitos críticos pedagógicos insistem "a cultura popular torna-se mercadoria e produz pessoas à imagem de sua própria lógica, uma lógica caracterizada pela padronização, uniformidade e passividade" (Freire e Giroux, 1994, p. 4). Ao mesmo tempo, ela tende a reforçar uma dominância sexista, racista e os estereótipos culturais, impondo visões da realidade que autorizam alguns grupos às custas de outros.
Uma arte-educação pós-moderna enfatiza a habilidade para interpretar obras de arte em termos de seu contexto social e cultural como o principal resultado da instrução. Isto é válido não apenas para a supostamente séria, a arte erudita, mas também para as tendências e impactos da cultura popular e cotidiana. Mais adiante explicarei porque é de crucial importância que seja dada uma atenção séria ao estudo da cultura popular.
Cada uma destas definições tem seus problemas. A arte-educação baseada sobre uma definição modernista da arte tende a aplicar padrões de bom gosto e critérios de excelência artística, mas tal arte torna-se isolada do resto da experiência, de muitas maneiras aqueles objetos em museus estão isolados do resto da vida. Tal arte-educação proverá uma experiência e apreciação estética para coisas refinadas, mas tampouco enfatizará um entendimento cultural nem uma base para uma ação social.
A arte-educação baseada em uma definição pós-modernista é potencialmente conectada ao resto da vida, mas sem limites entre arte e o contexto social maior para o qual ela pertence, torna-se bastante difícil escolher o que deve ser estudado. A pluralidade diáfana das formas artísticas é uma fonte de confusão para os que fazem o curriculum e os estudantes.
Visões Contrastantes
do Progresso
Contrastes entre Modernismo e Pós-modernismo
| TÓPICO | MODERNISMO | PÓS-MODERNISMO | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Natureza da Arte | Arte é um objeto esteticamente único que deve ser estudado isoladamente de seu contexto específico | Arte é uma forma de produção cultural que deve ser estudada situada em seu contexto cultural | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Visão de Progresso | Como todos os empreendimentos humanos a arte faz progresso. Progresso é uma grande narrativa se desdobrando no tempo. O estudo deveria se organizar em torno desta narrativa. | Não há progresso, apenas trocas, com avanços em uma área à custo de outras áreas. O estudo deveria se organizar em torno de múltiplas narrativas. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Vanguarda | O progresso é possível graças à atividade de uma elite cultural. A educação deveria possibilitar às pessoas apreciarem suas contribuições à sociedade | A autoridade auto-proclamada das elites está aberta a questionamento. O estudo deveria dar destaque à crítica dando possibilidade aos alunos para levantar questões pertinentes. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Tendências Estilísticas | Estilos abstratos e não-representacionais são preferidos em relação aos estilos realistas. Os estudantes devem ser encorajados a experimentar com estilos abstratos e conceituais. | O realismo é aceito mais uma vez. Estilos ecléticos são evidentes. Os estudantes têm a permissão de escolher entre os vários estilos e usá-los isoladamente ou em conjunto. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Universalismo versus
Pluralismo |
Toda variação estética pode ser reduzida ao mesmo conjunto universal de elementos e princípios, e estes devem ser centrais ao ensino da arte. | O pluralismo estilístico deve ser estudado para possibilitar que os alunos reconheçam e interpretem diferentes representações da realidade. |
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