O Propósito da
Arte-Educação
Se a construção da
realidade continua a ser a missão das artes, o
propósito da arte-educação, então, é contribuir para
o entendimento dos panoramas social e cultural habitados
pelo indivíduo. As crianças do amanhã precisam das
artes para capacitá-las a compreender e comunicar-se com
os termos de sua sociedade, para que elas possam ter um
futuro nessa sociedade!
Representando a
Realidade do Outro
Podem os
arte-educadores representar a arte de outros grupos
sabendo que em certo sentido ninguém pode falar
precisamente pelos outros?
Precisamos desenvolver
melhores definições de cultura que as existentes. As
definições da cultura ocidental têm muitas vezes
delimitado a cultura referindo-se unicamente à cultura
erudita como no caso sob o modernismo. Mas a cultura é
um fenômeno variado contendo múltiplas linhas de
aspectos eruditos e não eruditos. Temos discutido o
impulso cultural do Mundo Mac como uma tendência
negativa que se não for desafiada pode eventualmente
impor seu próprio universalismo, reduzindo a totalidade
da diversidade cultural do mundo a um vazio monolítico.
Um fato similar espera-nos se o impulso da Jihad
tornar-se dominante. Ela pode realçar diferenças, mas
pode negar a liberdade para explorar a
"alteridade". A identidade pessoal torna-se
limitada pelos horizontes construídos socialmente
elaborados por cada grupo, cada um impedindo a entrada de
influências externas com barreiras invisíveis, Grandes
Muralhas da China psicológicas. Mas, sabemos que há
outras culturas além do horizonte e assim necessitamos
de uma arte-educação internacional onde diferenças
culturais não são simplesmente reconhecidas, mas são
vistas como recursos para capacitar o indivíduo a
completar seu potencial. De uma maneira curiosa, a
percepção humana de si permanece incompleta se não
podemos descobrir como cada um de nós é o outro do
"outro".
Como os arte-educadores podem contribuir na construção de um novo mito para o mundo pós-moderno?
Esta questão é a mais confusa de todas e me preocupa que ela possa estar fora do alcance da arte-educação. Os mitos surgem nas províncias da cultura e são socialmente construídos notavelmente cedo, nenhuma cultura sozinha tem tido sabedoria suficiente para criar novos mitos para nosso tempo por si própria. Do ponto de vista do Mundo Mac, a cultura é reduzida a entretenimento ou "infotimento", usando um termo de Barber, e estes tampouco servem para anunciar mercadorias, ou tornarem-se mercadorias eles mesmos. A cultura torna-se outra mercadoria no mercado e, não tendo propósitos elevados, sua fabricação e marketing é dirigida pela economia de oferta e procura.
A Arte como Conteúdo para Estudos Culturais
A arte, a música e a literatura podem servir como conteúdo para uma pedagogia crítica que tem como uma de suas missões o questionamento do mercado cultural internacional e a cultura como uma forma de Jihad. Isto provavelmente será arduamente combatido se aquele curriculum capacitar os estudantes a tornarem-se cônscios das forças predatórias em suas vidas e se em seus estudos forem encorajados a questionar. Aqueles que governam o Mundo Mac preferem que seus clientes não questionem e apenas se divirtam, especialmente se eles consumirem de acordo com seu estilo de vida sem questionar o sistema. Os pedagogos críticos como Peter McLaren (1995) falam sobre a necessidade de uma pedagogia de resistência e transformação para contrariar as forças hegemônicas como o Mundo Mac. A resistência pode ter sucesso à curta distância, mas desde que ela reage à dominação, e não é empreendida livremente, não é genuinamente livre.
Do ponto de vista da Jihad a cultura é reduzida aos mitos que mantêm e promovem a identidade tribal, e o estudo de culturas externas pode ser percebido como exposição à influências contaminadoras. Vemos como isto se processa em muitos países do terceiro mundo, no fundamentalismo religioso, nos ataques perpetrados pelos jovens skinhead alemães a imigrantes turcos e entre a supremacia branca nos Estados Unidos.
Ambas as tendências têm ultimamente trabalhado para encurtar a liberdade individual. A liberdade na visão do Mundo Mac é limitada ao se fazer escolhas entre as mercadorias ou quanto aos meios de diversão, e não inclui escolhas morais. Na Jihad há a liberdade ilusória para resistir às influências da aculturação dos grupos dominantes, mas não há liberdade para explorar o mundo das diferenças além do conjunto de horizontes de sua própria cultura. A cultura pode ser um lugar de refúgio, mas também pode ser sua própria prisão.
As Artes, Cognição e Educação
Nos últimos 25 ou 30 anos um novo desenvolvimento tem surgido sob a psicologia cognitiva que tem mudado nossa compreensão do aprendizado. É comum dizer que há certas matérias que são boas para o pensamento como a lógica e a matemática enquanto outras como as artes são boas para o cultivo dos sentimentos. Tal separação já não é mais tão sustentável (Parsons, 1992). O que está tornando-se claro é que o aprendizado em qualquer matéria ocupa todas as três facetas da cognição. Chamo estas, à maneira de Steiner, pensamento, sentimento e vontade. Cada uma, por si mesma, é incompleta sem as outras duas.
Pensamento é a capacidade cognitiva de tratar com conceitos e idéias, mas quando deixa de sê-lo, pode levar a uma abstração exangue de pensamentos mortos. O pensamento sem sentimento não pode levar à decisões morais porque os sentimentos ajudam a sensibilizá-lo para as conseqüências das idéias e ações. Além disso, o pensamento não acontece numa mente ociosa, mas é, ele mesmo, um ato de vontade. Somando-se ao pensamento, a atividade cognitiva deve envolver a vontade bem como o sentimento. Os sentimentos também nos tornam capazes de lidar com a afeição e a aversão, simpatias e antipatias, acertos e erros.
Uma vida governada inteiramente pelo sentimento sem o pensamento pode ser perigosa, como quando os prazeres tornam-se vícios ou quando as pessoas se engajam em opiniões violentas. Ações morais tornam-se possíveis quando indivíduos são capazes de usar os sentimentos como um recurso para animar o pensamento. John Dewey trata a questão como ponto de partida das "dificuldades sentidas". Tais sentimentos animam a mente por tornarem-se objetos do pensamento. Todavia, o caso é que várias matérias no curriculum diferem em sua capacidade de esboçar o pensamento, o sentimento e a vontade coerentemente. É no campo do pensar sobre os sentimentos que a arte-educação tem o seu papel chave na educação.
Os psicólogos cognitivos descrevem correntemente o aprendizado em termos de uma tripla organização. Termos como conhecimento básico, estratégia e disposição abundam na literatura atual (ver Prawat, 1989). O conhecimento básico situa-se no campo do pensamento, contendo as idéias e conceitos resultantes da percepção sensorial. O campo das disposições corresponde ao plano dos sentimentos, enquanto que o campo das estratégias comanda os meios pelos quais mobilizamos nossa vontade de aprender mais ou empreender ações em face a problemas. O aprendizado bem sucedido deve envolver esses três elementos mas as artes têm atributos próprios para desenvolver e engajá-los como poderes da mente como David Perkins explica:
"A arte ajuda de uma maneira natural. O olhar para a arte convida, recompensa e encoraja um temperamento atencioso, porque obras de arte requerem atenção para descobrir o que elas têm para mostrar e dizer. Obras de arte também conectam o social, o pessoal e outras dimensões da vida com fortes sugestões afetivas. Então, é melhor do que a maioria das situações, olhar para a arte pode construir realmente disposições para um pensamento básico" (Perkins, 1994, p. 4).A Liberdade da Vida Cultural
Como pode a comunidade internacional dos arte-educadores começar a lidar com os problemas das áreas mencionadas no início? Começamos por reconhecer que a meta da arte-educação reside dentro da esfera espiritual-cultural do indivíduo e tem como seu principal objetivo "a liberdade da vida cultural". Ela é apenas indiretamente endereçada às esferas da economia ou cidadania, embora estas áreas de interesse humano ultimamente tornaram-se beneficiadas por uma educação através da arte. É aqui que é mais provável encontrarmos resistência da escola e órgãos governamentais, pais e amigos, porque a educação pública é controlada pelo estado nas nações industrializadas e muitos estados tendem a colocar os problemas da competição econômica internacional acima de outros interesses. Franz Carlgren (1986) nos fala a respeito das atuais condições que afetam a educação contemporânea:
"Mais ainda, escolas, universidades e laboratórios científicos são reconhecidos e tratados como fatores em uma acirrada disputa econômico-política internacional; curriculum, a forma da instrução, decisões a respeito de exames… são consistentemente adaptados às necessidades da indústria, governo, ou mesmo da máquina militar… a liberdade da vida cultural está em perigo naqueles países que consideram a si mesmos "livres"… Quando a demanda do estado industrial moderno influencia o andamento do trabalho e os requisitos de exames do sistema educacional a um nível muito elevado, então o resultado inevitável é a revolta dos jovens e dos estudantes" (1986, p. 13).Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos que ilustrem a observação de Carlgren. O Japão, por exemplo, tem um dos mais rigorosos sistemas de exames educacionais do mundo, mas também tem a mais alta taxa mundial de suicídios de adolescentes. A violência das gangues é a causa principal de morte entre adolescentes negros americanos que se sentem excluídos do processo educacional. O preço para realizar objetivos econômicos pode ser muito alto se isto oprime o indivíduo no processo. Metas econômicas e sociais são mais provavelmente garantidas pelo estímulo das potencialidades da mente através de experiências que evoquem os estudantes para encontrar sentido em suas experiências de vida dentro e através das artes.
Obras de arte apresentam à nossa percepção formas de sentir criadas pelos artistas, tornando-as disponíveis para cognição. Ensinamos arte não meramente para capacitar crianças a fazerem quadros artisticamente, ou para determinar se um objeto é suficientemente bom para justificar a apreciação e o reconhecimento, mas para capacitar os estudantes a penetrar na essência de uma obra de arte. A compreensão é atingida através da interpretação de tais obras, onde a obra é vista em relação ao contexto em que está situada. Isso é possível porque uma obra de arte é sempre a respeito de alguma outra coisa que a arte! A capacidade para fazer determinações e julgamentos provavelmente não emergirá se as crianças forem deixadas de fora desses dispositivos. Levantam-se quando o ensino intencionalmente os deixa de fora no desenvolvimento do poder da mente, incluindo a imaginação, através da criação e interpretação reflexiva. Isso é o que de melhor a arte-educação pode prover, e é minha crença que as compreensões cultivadas através do estudo da arte sejam formas de deliberação que podem preparar as fundações para uma liberdade cultural e uma ação social.
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